Retalho unido no combate ao plástico

Os retalhistas têm como objetivo cortar no desperdício de plástico até 2025 e travar a poluição dos oceanos

16 · 08 · 2019

A guerra ao plástico no setor do retalho está declarada! Com os resíduos de plástico a continuarem a acumular-se nos aterros e nos nossos oceanos, colocando em risco a vida selvagem, combater a poluição por causa do plástico nunca foi tão urgente.

Há 1,6 milhões de quilómetros quadrados de oceano Pacífico onde flutuam 1,8 biliões de peças de plástico. O que dá a cada habitante “direito” a 250 pedaços de lixo marinho. Nessas ilhas flutuantes estão os sacos de plásticos que os consumidores carregam nas suas compras de supermercado, ou não fosse esse um dos 10 produtos de plásticos que compõem metade do lixo marinho.

A reciclagem faz parte da solução, mas nem de perto é suficiente para resolver o problema. Somente 9% do plástico é reciclado em todo o planeta, com assimetrias regionais bem vincadas: enquanto na Europa se chega aos 30%, os EUA encaixam precisamente na média mundial dos 9%.

Em Portugal, 42% do plástico é reciclado, e com tendência a subir: entre 2011 e 2015 (últimos dados disponíveis), a reciclagem desde material, recolhido pela Sociedade Ponto Verde, cresceu quase 100%, de 74 mil para 145 mil toneladas.

Segundo um relatório publicado em novembro na revista Science Advances, desde 1950 já se produziu 8,3 mil milhões de toneladas de plástico (um pouco mais de uma tonelada por cada pessoa que vive hoje na Terra).

Em suma, por mais otimistas que sejam as perspetivas de crescimento da reciclagem, continuará a produzir-se e a acumular-se muito mais plástico do que aquele que é tratado.

É uma realidade que muito do lixo que chega ao mar foge ao controlo e responsabilidade direta dos consumidores portugueses, seja por razões geográficas (é na Ásia que o problema está mais descontrolado), seja porque parte substancial do plástico tem origem na indústria das pescas. No entanto, podemos fazer muito mais do que fazemos atualmente.

É preciso uma alteração do paradigma: substituir o plástico descartável por reutilizável, desde os copos para as festas aos recipientes para levar comida dos restaurantes. E já não temos muito tempo: há estudos a prever que, daqui a 30 anos, haverá mais plástico do que peixe nos oceanos.

É seguramente uma guerra muito difícil de combater, mas têm sido dados passos importantes.

A partir de 2020 é proibido usar sacos de plástico nos supermercados

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A altura em que ia ao supermercado e voltava para casa cheia de sacos de plástico onde transportava frutas, legumes e pão está prestes a acabar. O Parlamento aprovou em abril deste ano um projeto de lei do Partido Ecologista Os Verdes (PEV) para proibir a utilização de sacos de plásticos ultraleves e cuvetes de esferovite nos estabelecimentos comercias.

A medida deverá entrar em vigor a partir de junho de 2020 em todas as superfícies comerciais de Portugal.

Daqui a pouco mais de um ano, mercearias e supermercados terão de oferecer aos clientes uma alternativa mais sustentável e amiga do ambiente. Mas a solução pode também partir dos consumidores, se estes optarem por utilizar sacos de pano ou embalagens reutilizáveis.

Recorde-se que esta é uma medida que surge na sequência da proibição da venda de produtos de utilização única – como pratos, copos, talheres, palhinhas e garrafas – também a partir do próximo ano.

De igual modo, a partir de 1 de janeiro de 2020, passarão também a ser proibidos os chamados sacos de plástico oxo-degradáveis, apresentados nos últimos anos como sendo mais ecológicos porque são mais finos, mas os estudos vieram revelar que apenas se desintegram em pequenas partículas igualmente poluidoras. Já os sacos de plásticos mais espessos aumentam de preço. A única exceção serão os sacos que incorporem 70? plástico reciclado.

Por outro lado, para as embalagens está prevista a introdução de uma gratificação com vales de compras na sua devolução. A medida avança como projeto-piloto em diversos supermercados, prevendo-se o seu alargamento a todo o país dentro de dois anos.

Hipermercados portugueses mais sustentáveis

Forçados pela regulamentação, pressionados pelos consumidores ou conscientes da própria responsabilidade social e ambiental, os hipermercados a atuar em Portugal têm, ao longo dos últimos anos, implementado várias medidas de combate ao uso do plástico descartável e desperdício alimentar.

O Continente tornou-se no primeiro retalhista português a assinar o pacto internacional do plástico, o New Plastics Economy Global Commitment da Fundação Ellen MacArthur. Com uma visão de economia circular para o plástico, os hipermercados da Sonae comprometeram-se, por exemplo, a eliminar todas as embalagens plásticas problemáticas ou desnecessárias, torná-las 100% reutilizáveis ou recicláveis, para reduzir as embalagens de uso único até 2025.

No retalho, a consciência é geral: há um problema com a utilização do plástico e é urgente o uso racional desse material.

Com alternativas como papel ou ráfia, os sacos disponibilizados nos hipermercados em Portugal têm, no geral, 80? matéria reciclada e são 100% recicláveis.

O Pingo Doce também lançou uma gama de cotonetes com bastão de papel, à semelhança do que o Continente, a Auchan e o Intermarché já haviam feito.

Isoladamente, a marca própria da Auchan, que recentemente lançou uma campanha de oferta de ecobags nas encomendas online, disponibiliza também palhinhas de papel e artigos de festa (talheres, pratos e copos descartáveis) de madeira certificada de origem sustentável e, a par do Continente, colocou à venda escovas de dentes de bambu.

Alinhado com a preocupação ambiental surgiu o projeto Eco do Pingo Doce, que permite o reenchimento de garrafas de água em mais de 40 lojas. Em 2018, esta iniciativa permitiu evitar a utilização de cerca de quatro toneladas de embalagens de plásticos descartáveis.

Nas políticas de sustentabilidade de algumas grandes cadeias há ainda uma aposta no eco design das embalagens. Com a redução da espessura das garrafas de água de marca própria, o Continente reduz, por ano, 41 toneladas de plástico.

Também são cada vez mais os espaços em Portugal onde as vendas se fazem à moda antiga, a granel.

É o caso da Maria Granel, em Lisboa. Em atividade há quatro anos, esta mercearia possui, atualmente, dois espaços em funcionamento, um em Alvalade e outro em Campo de Ourique. Foi a primeira loja em Portugal, e uma das pioneiras na Europa e no mundo, a dispensar as embalagens e a vender exclusivamente a granel. Foram também referenciados internacionalmente como os introdutores do sistema BYOC (‘Bring your own container’) no mercado nacional, possibilitando que os seus clientes levem os seus próprios recipientes para se abastecerem.

Os pilares da missão da Maria Granel estão literalmente inscritos nas suas paredes: consumo responsável e sustentável e redução do desperdício. O compromisso com a sustentabilidade verifica-se também na aposta na produção local, com um crescente número de fornecedores biológicos e certificados.

Podemos concluir que por todo o mundo está declarada a guerra ao plástico. As imagens dramáticas da ilha de plástico no Pacífico Norte confirmam a urgência nas medidas.

A solução passa pela redução da dependência do plástico, reduzindo os de utilização única e alterando os hábitos no sentido de uma economia circular. Caso contrário, se nada for feito, em 2050, haverá mais plásticos do que peixes no mar.


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